13 de junho de 2026 foi o tão aguardado primeiro jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da FIFA de 2026. O Brasil empatou com a Seleção Marroquina, com um placar final de 1 a 1 e hoje (19 de junho de 2026), o Brasil enfrentará a Seleção Haitiana. Porém, o que pouco se comenta é a curiosa história de como um evento quase centenário acompanha a evolução das tecnologias de telecomunicações, funcionando quase como um “laboratório de testes” para novas tecnologias. São essas inovações que fazem com que os bilhões de fãs de futebol no mundo todo consigam acompanhar os eventos do maior espetáculo esportivo da história.
As Primeiras Copas do Mundo
A primeira Copa do Mundo no Uruguai, em 1930, não havia tecnologias de comunicação avançadas o suficiente para espalhar informações em tempo rápido, não existia transmissão de áudio a longa distância. Quem não estava no estádio dependia de jornais impressos e telegramas que demoravam horas (ou dias) para relatar os placares.
Na Copa de 1934, na Itália, houve uma transmissão de rádio pela Europa, sendo considerada o primeiro grande torneio de futebol a ter uma cobertura radiofônica ampla e estruturada no continente europeu. Na época, a Itália já era um país forte em pesquisas de telefonia sem fio. O ditador italiano Benito Mussolini investiu pesado em tecnologias de comunicação como propaganda política. O governo italiano montou uma rede de transmissões que alcançou 12 dos 16 países participantes da competição e, como o rádio era um aparelho caro, os cidadãos italianos conseguiam ouvir a transmissão do jogo em alto-falantes instalados em praças públicas. Porém, o Brasil ficou de fora, pois não havia transmissões de rádio transatlânticas na época; a população brasileira só descobria os resultados por meio de telégrafos e manchetes de jornais, assim como em 1930.
Já na Copa de 1938 na França foi a primeira onde houve transmissão transatlântica ao vivo por rádio para o Brasil. A transmissão via linhas telefônicas precárias era instável, os microfones eram pesados e os locutores davam socos neles para tentar melhorar o som que falhava constantemente. O locutor brasileiro Leonardo Gagliano Neto, titular do Departamento de Esportes da PRA-3 – Rádio Clube do Brasil do Rio de Janeiro, era o único radialista sul-americano em ação nos estádios franceses. Assim como o Brasil era a única seleção participante abaixo da linha do Equador.

O protagonista dessa história, Gagliano Neto, narrou os jogos diretamente dos estádios franceses, as transmissões foram geradas pela Rádio Cruzeiro do Sul do Rio de Janeiro e retransmitidas por uma rede nacional montada pela Bryngton e pela Rádio Kosmos de São Paulo. Gagliano também enfrentou diversos problemas como ruídos, chiados e quedas de sinal, contudo, seu gênio revolucionou as narrações as tornando mais dinâmicas e teatrais para compensar as falhas técnicas do áudio e ajudar o ouvinte a mentalizar os lances. O país parava para ouvir os jogos da seleção em locais onde haviam rádios, pessoas se aglomeravam para escutar a narração de Gagliano. O sucesso das transmissões provocou uma explosão na venda de receptores de rádio no Brasil nas semanas que antecederam e sucederam o torneio.
As Primeiras Copas pós Segunda Guerra Mundial
Após a Copa de 1938, o torneio foi suspenso por 12 anos devido à Segunda Guerra Mundial. Em 1950 foi o ano onde aconteceu a primeira Copa pós Segunda Guerra e o Brasil pela primeira vez sediava a Copa do Mundo. O principal meio de comunicação era o rádio, foi essa época que ficou conhecida como “A Era de Ouro dos Rádios”, pelo menos oito emissoras fizeram a cobertura, trazendo as emoções em tempo real para milhões de brasileiro, nomes consagrados como Luiz Mendes (Rádio Globo) e Ary Barroso (Rádio Tupi) comandaram as transmissões e tentavam ao máximo transmitir a energia dos jogos no estádio.


Em 1954, a Copa do Mundo foi sediada na Suíça, onde neste ano foi o início da transição do rádio para a transmissão de futebol ao vivo pela televisão, revolucionando a indústria de telecomunicações europeias. A recém-criada rede da União Europeia de Radiodifusão (Eurovisão) distribuiu as imagens em preto e branco para televisores de oito nações do continente europeu. A televisão no Brasil ainda estava em seus primórdios, telas em preto e branco e enfrentava problemas de transmissão, o principal meio de comunicação continuava sendo o rádio devido as condições sociais e tecnológicas do país.
O lendário ano de 1958, a Copa da Suécia foi vencida pela primeira vez pela Seleção Brasileira, onde surgia nomes que iriam entrar para a história: Didi, Zagallo, Garrincha e aquele que ficou conhecido eternamente como “Rei do Futebol”, Pelé. Durante essa Copa, ocorreu um evento muito interessante, foi a revolução do rádio transistorizado de pilha. Graças à massificação de circuitos baseados em transistores, pois antes ouvir rádio exigia aparelhos imensos e pesados baseados em válvulas de vácuo, que precisavam ser ligados diretamente à tomada, as pessoas poderiam sair de suas casas e pela primeira vez, levar o radinho para as ruas. O futebol deixou de ser consumido apenas na sala de casa ou em praças públicas. O torcedor passou a caminhar pelas calçadas colado ao “radinho de pilha”, transformando a comemoração do título de 1958 em um fenômeno urbano instantâneo e móvel.

Embora a cobertura de rádio no Brasil tenha sido um espetáculo de audiência, a engenharia por trás das transmissões intercontinentais era puramente artesanal.o som viajava da Suécia ao Brasil por meio de gigantescos transmissores de rádio na tecnologia SSB (Single Side Band). O sinal oscilava violentamente no Oceano Atlântico. Narradores históricos como Pedro Luís e Édson Leite transmitiam os jogos às cegas. Não existia linha de retorno; os locutores na Suécia não ouviam os técnicos nos estúdios do Brasil e precisavam confiar que suas vozes estavam chegando limpas através das instáveis ondas curtas.
Embora as televisões já estavam presentes no Brasil, a diferença de transmissão entre América do Sul e Europa era imensa. Nas Copas anteriores, os registros visuais dependiam de rolos de filmes de cinema revelados. Em 1958, as principais redes de TV brasileiras conseguiram exibir, pela primeira vez, as partidas gravadas em fitas de videoteipe. Os lances eram gravados em fitas magnéticas, o envio ainda era físico. As fitas precisavam voar em aviões comerciais saindo de Estocolmo com destino ao Rio de Janeiro e São Paulo. Desse modo, o torcedor brasileiro que escutava os gols pelo rádio no domingo só assistia à imagem desses mesmos gols na TV dois ou três dias depois.
Entretanto, justamente em 1962 onde o Brasil consegue sua segunda Copa no Chile, a situação se torna diferente. o grande marco das telecomunicações foi a operação de guerra logística da televisão brasileira, que conseguiu reduzir o tempo de atraso das imagens de dias para apenas algumas horas. Pela primeira vez na história, o torcedor brasileiro pôde assistir aos jogos na TV na mesma noite em que eles aconteciam, consolidando o bicampeonato mundial com uma agilidade visual inédita. As emissoras brasileiras (com destaque para a TV Tupi, TV Cultura e TV Excelsior) montaram uma central técnica e estúdios móveis na cidade de Mendoza, na Argentina, que ficava geograficamente muito próxima a Santiago e possuía melhor infraestrutura técnica de enlaces de micro-ondas. Graças a estratégias de gravação, o torcedor que havia escutado o jogo pelo rádio à tarde conseguia assistir à partida inteiramente gravada na TV poucas horas depois, um recorde absoluto para a época.
O Nascimento da Transmissão Global via Satélite
A polêmica Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, marca o nascimento da transmissão global via satélite. A grande virada tecnológica do mundo aconteceu graças ao Intelsat I, apelidado de Early Bird (Pássaro da Manhã). Lançado em 1965, ele foi o primeiro satélite de comunicações comerciais em órbita geoestacionária, pela primeira vez na história das Copas, as imagens cruzaram o Oceano Atlântico ao vivo e em tempo real. Torcedores no México e nos Estados Unidos puderam sintonizar os jogos de suas seleções diretamente da Inglaterra sem atrasos, registrando audiências massivas para a época, porém, a realidade não era a mesma para o Brasil.
O torcedor brasileiro sofreu com a eliminação precoce da Seleção em 1966 acompanhando tudo exclusivamente pelas transmissões ao vivo via rádio. Para a televisão brasileira, o esquema de 1966 repetiu a lógica de 1962, mas com distâncias muito maiores. As fitas de videoteipe gravadas em Londres eram colocadas em aviões comerciais que cruzavam o Atlântico. Os jogos passavam na TV com um ou dois dias de atraso. O atraso de 1966 gerou uma urgência nacional. Foi a partir desse incômodo que o Brasil acelerou a criação da Embratel e construiu a histórica Estação Terrena de Tanguá (RJ). Sem o aprendizado e o “atraso” de 1966, o Brasil não teria se preparado a tempo para o show de transmissão ao vivo de 1970.

Essa Copa foi também marcada pelo nascimento do Slow Motion (Câmera Lenta). Equipamentos primitivos de replay magnético permitiram que os juízes e telespectadores revisassem lances polêmicos de forma desacelerada pela primeira vez. O emblemático gol duvidoso da Inglaterra na final contra a Alemanha Ocidental inaugurou a era do debate infinito de imagem na TV.
1970, o ano lendário onde a Seleção Brasileira pôde conquistar sua terceira Copa do Mundo, essa que também pode ser chamada de “O Santo Graal” das telecomunicações no Brasil. Pela primeira vez na história, o torcedor brasileiro pôde gritar “Gol!” exatamente no mesmo milésimo de segundo em que Pelé, Tostão ou Jairzinho balançavam as redes no México. Até 1969, o Brasil era isolado tecnologicamente do mundo no quesito transmissões visuais ao vivo. Tudo mudou em fevereiro de 1969, quando a recém-criada Embratel inaugurou a Estação Terrena de Tanguá, O sinal vinha do México, subia para o satélite geoestacionário Intelsat III (posicionado sobre o Oceano Atlântico) e era captado pela antena gigante de Tanguá. De Tanguá, o sinal era enviado via micro-ondas terrestres para o Rio de Janeiro e São Paulo. Cidades mais distantes e fora desse eixo ainda precisavam esperar algumas horas para receber.

A Copa de 70 também ficou conhecida por transmitir pela primeira vez imagens coloridas em tempo real, mas não como no mito do “Copa de 70 foi vista em cores pelo Brasil”. O governo brasileiro realizou transmissões experimentais em cores para locais específicos, como o Palácio do Planalto e alguns teatros e estúdios. No entanto, a esmagadora maioria da população assistiu ao Tri em aparelhos preto e branco, pois as TVs coloridas só começaram a ser fabricadas e vendidas comercialmente no Brasil em 1972 (para a Independência e Olimpíadas de Munique).
Apesar do sucesso da TV, o rádio não perdeu o trono imediatamente. Como o sinal de satélite era novo e ainda corria o risco de quedas, as emissoras de rádio mantiveram suas transmissões via ondas curtas e cabos telefônicos como garantia. Para muitos brasileiros que trabalhavam ou estavam na rua, o “radinho de pilha” continuou sendo o companheiro oficial para acompanhar os jogos do Brasil.
A copa de 1974 na Alemanha Ocidental foi a primeira Copa do Mundo transmitida oficialmente em cores para o público brasileiro do início ao fim. O mercado de televisores coloridos já estava mais maduro no Brasil, permitindo que uma parcela significativamente maior da população assistisse aos jogos em cores em comparação a 1970. O uso de satélites geoestacionários mais modernos garantiu transmissões ao vivo e sem interrupções transatlânticas, reduzindo drasticamente os atrasos e chuviscos na imagem. Vale ressaltar que também a tecnologia de computação gráfica deu os primeiros passos, permitindo a inserção de letreiros com escalações e tempos de jogo de forma mais limpa.
A primeira Copa que a maioria do público brasileiro de classe média de fato assistiu em cores dentro de casa foi a de 1978 na Argentina, consolidando o fim da era do preto e branco no país. A tecnologia de replays e a transmissão internacional em câmera lenta amadureceram drasticamente. A imagem de TV ganhou um papel analítico e técnico crucial, permitindo discussões acaloradas e detalhadas sobre arbitragem e lances polêmicos quase instantaneamente no pós-jogo. Devido à proximidade geográfica com a Argentina, a Embratel utilizou uma robusta rede de torres de micro-ondas para trazer o sinal de áudio e vídeo, deixando o satélite Intelsat como um sistema de backup seguro.
A Copa de 1982, ocorrida na Espanha, não trouxe tantas mudanças bruscas na transmissão via satélite, mas o grande marco foi a revolução no comportamento do consumidor em casa. O torcedor brasileiro não dependia mais de estar ao vivo na frente da TV ou de ajustar sua rotina ao horário de Brasília. Com o videocassete (nos formatos VHS e Betamax) finalmente se popularizando no mercado nacional, as pessoas começaram a gravar os jogos em fitas para rever os lances mais tarde ou colecionar as partidas da inesquecível Seleção de Telê Santana. Do lado técnico da transmissão, a televisão espanhola (RTVE) inovou ao espalhar mais de 100 câmeras pelos estádios e usar, de forma pioneira, microfones de alta fidelidade instalados rente ao gramado e atrás dos gols, captando o som do impacto da bola e os gritos dos jogadores, o que aumentou drasticamente a imersão sonora dos telespectadores.
Já em 1986, no México, houve a consolidação definitiva dos primeiros gráficos de computador gerados em tempo real na tela. O placar do jogo e o cronômetro começaram a aparecer fixos no canto superior da imagem com muito mais frequência durante a transmissão de canais internacionais, eliminando a necessidade de o narrador falar o tempo a cada minuto. O México, que havia sofrido um terrível terremoto em 1985 destruindo parte de sua infraestrutura central, utilizou uma rede de satélites domésticos recém-lançada (a rede Morelos) combinada com os novos satélites Intelsat V, garantindo redundância total. Se uma estação terrestre falhasse, o sinal mudava de rota instantaneamente, impedindo que o mundo perdesse os lances geniais de Maradona.

Em 1990, na Itália, a tecnologia local (da emissora estatal RAI) e a japonesa (da NHK) uniram forças para gerar a primeira transmissão experimental da história em Alta Definição (HD), usando o sistema analógico Hi-Vision com impressionantes 1125 linhas de resolução (contra as 525 ou 625 linhas dos sistemas tradicionais da época). Telões e monitores especiais em algumas cidades selecionadas do mundo, inclusive em salas de exibição fechadas no Brasil, exibiram o torneio com uma nitidez nunca antes vista. Além disso, a Copa da Itália introduziu formalmente o uso de grafismos tridimensionais nas vinhetas e a famosa câmera “Skycam” (câmera aérea suspensa por cabos), que voava sobre o campo para dar uma perspectiva tática aérea das jogadas, pavimentando o padrão visual que dominaria os anos 2000.
Estados Unidos, 1994: a Copa em que muitos duvidavam que a Seleção Brasileira conseguiria seu quarto título, conquistado com jogadores lendários como Romário, Bebeto, Cafu e Taffarel. O tetracampeonato do Brasil foi a primeira Copa com ampla cobertura da TV por assinatura (cabo e miniantenas parabólicas) no país, com canais como a Globosat/SporTV e a ESPN Internacional oferecendo alternativas completas, com mesas redondas 24 horas, às redes abertas tradicionais. A captação nos modernos estádios americanos utilizou tecnologias avançadíssimas de computação gráfica para exibir estatísticas complexas em tempo real na tela (porcentagem de posse de bola, mapas de faltas e finalizações). O sinal internacional que cruzava o mundo passou a ser processado por codificações digitais incipientes antes de chegar às operadoras, e as transmissões por satélite tornaram-se muito mais limpas, eliminando os antigos “fantasmas”, chuviscos e as interferências causadas por tempestades tropicais que assolavam as transmissões analógicas antigas.
Já na Copa do Mundo na França, em 1998, houve a consolidação definitiva do áudio digital estéreo e do som surround nas transmissões de grande porte, permitindo que quem tivesse um home theater em casa sentisse a acústica real dos estádios franceses. O torneio marcou também o início dos testes reais de interatividade: o telespectador europeu que já dispunha da recém-nascida TV Digital via satélite (como o sistema Sky Digital ou Canal+) podia, através do controle remoto, escolher por qual ângulo de câmera queria assistir ao replay do gol ou acessar estatísticas exclusivas em uma janela lateral da tela. Foi também a primeira Copa em que a internet desempenhou um papel informativo de apoio, com o site oficial da FIFA registrando recordes de acessos para usuários que buscavam atualizações minuto a minuto em computadores de mesa, iniciando a era da “segunda tela”.
O Século XXI, Um Novo Marco para a História
A partir dos anos 2000, o ritmo da inovação tecnológica atingiu uma velocidade sem precedentes, e as telecomunicações passaram a moldar a própria estrutura da Copa do Mundo. A maior transformação desse período foi a quebra de uma barreira histórica: o futebol deixou de ser um evento exclusivo da televisão. Atualmente, graças aos smartphones e às redes móveis de alta velocidade, é possível assistir aos jogos ao vivo de qualquer lugar com sinal, gerando uma massificação sem igual. A Copa do Mundo transformou-se em um fenômeno multitelas global e de altíssima conectividade, onde o torcedor interage, assiste e compartilha simultaneamente. Mas vamos iniciar as principais inovações para isso ter acontecido.
A Copa de 2002 foi realizada nas duas nações mais tecnológicas do planeta na época, Japão e Coreia do Sul. Foi um mundial onde houve diversas inovações pioneiras, como a transmissão digital (SDTV). O sinal gerado na Ásia já era totalmente digitalizado na origem, o que eliminou de vez as perdas de qualidade e os ruídos no transporte internacional do sinal via cabos submarinos e satélites, embora a esmagadora maioria dos lares ao redor do mundo ainda possuísse as tradicionais TVs de tubo analógicas. Ocorreram também os primeiros testes mobile da história: as operadoras locais, aproveitando as redes 3G nascentes (baseadas nas tecnologias CDMA2000 e WCDMA), transmitiram clipes de gols e melhores momentos diretamente para telefones celulares compatíveis, um vislumbre muito primitivo, mas revolucionário, do que seriam os smartphones no futuro. No entanto, para os brasileiros, a principal notícia foi a conquista do quinto título pela Seleção Brasileira, consagrando o país como “Penta”. Jogadores que marcaram a história do esporte foram os grandes protagonistas, como Ronaldo Fenômeno (que deu a volta por cima após graves lesões e o “belo” cabelo Cascão), Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Roberto Carlos, Rivaldo e, mais uma vez, o capitão Cafu. Este último e o Fenômeno conquistaram o seu segundo título mundial, o que consolidou a Seleção Brasileira isolada como a maior e mais vitoriosa seleção da história do futebol.

A Copa de 2006, na Alemanha, foi um divisor de águas para a qualidade de imagem na casa dos torcedores, impulsionando globalmente a transição tecnológica e a venda em massa de TVs de tela plana de Plasma e LCD. Pela primeira vez na história, todos os 64 jogos do mundial foram captados, produzidos e distribuídos globalmente em Alta Definição nativa (HD no formato Widescreen 16:9, nos padrões 720p e 1080i). O torcedor finalmente conseguiu enxergar a fisionomia detalhada dos jogadores, as expressões dos técnicos e até a textura do gramado com total nitidez, aposentando o antigo formato quadrado de tela (4:3). Também nessa mesma Copa, houve a consolidação do uso de câmeras de ultra câmera lenta (Hypermotion) instaladas em pontos fixos e estratégicos dos estádios alemães. Elas eram capazes de quebrar um único segundo em centenas de quadros, permitindo que as equipes de transmissão destrinchassem a biomecânica de faltas pesadas, toques de mão imperceptíveis e os temidos lances de impedimento milimétricos durante os replays.
A experiência de visualização em 3D e o “boom” avassalador das redes sociais foram as características marcantes da Copa do Mundo da África do Sul, em 2010. Em uma parceria ambiciosa entre a FIFA e a gigante de tecnologia Sony, 25 das 64 partidas foram gravadas com câmeras 3D estereoscópicas especiais e transmitidas para salas de cinema equipadas e canais de TV por assinatura dedicados ao redor do mundo. Embora essa tecnologia visual específica não tenha se consolidado nos anos seguintes, devido ao custo e ao desconforto do uso obrigatório de óculos especiais, ela ficou registrada como um grande marco de engenharia técnica e ousadia das telecomunicações. Paralelamente, fora das telas de TV, o mundo mudava: foi a primeira Copa em que plataformas como o Twitter e o Facebook explodiram em audiência simultânea global. O torcedor não estava mais isolado em sua sala assistindo ao jogo; ele agora comentava, criava memes e debatia as partidas com o mundo inteiro em tempo real, inaugurando oficialmente o conceito de “segunda tela”, algo que iria se intensificar agressivamente nos anos seguintes.
A Copa do Mundo de 2014 que ocorreu aqui no Brasil teve uma história interessante com as telecomunicações e rede móveis. Durante a preparação para a Copa do Mundo de 2014, com o objetivo de acelerar a implementação do 4G nas cidades-sede, o Brasil adotou uma estratégia inovadora: operadoras de telefonia e concessionárias de energia elétrica colaboraram para transformar postes de iluminação pública em antenas de transmissão. Essa medida evitou a construção de novas torres e reduziu significativamente o impacto visual urbano, algo que foi comentando no post A História das Gerações de Telefonia Móvel e o Futuro do 6G. Com a recém-instalada rede 4G no Brasil, os aplicativos de emissoras de TV e da própria FIFA permitiram transmissões estáveis de streaming de vídeo ao vivo diretamente nos smartphones. O conceito de “assistir à Copa no ônibus a caminho do trabalho” virou realidade para milhões de brasileiros, partidas selecionadas, incluindo a final no Maracanã, foram geradas na resolução 4K (quatro vezes superior ao Full HD), preparando a indústria para a próxima geração de televisores.

A tecnologia de telecomunicações e o processamento massivo de dados subiram de nível para interferir diretamente nas decisões de campo e na arbitragem do esporte durante a Copa de 2018, ocorrida na Rússia. Uma operação de engenharia de rede extremamente complexa conectava instantaneamente todas as dezenas de câmeras de alta velocidade de todos os estádios russos a uma Central de Transmissão Única (VBC) localizada em Moscou, utilizando uma robusta malha de fibra óptica subterrânea de altíssima velocidade e latência zero (sem atrasos). Pela primeira vez na história do futebol, o destino de um jogo dependia de uma rede de transmissão de dados perfeitamente integrada, permitindo a estreia oficial do Árbitro de Vídeo (VAR). Além disso, o formato 4K consolidou-se como o padrão oficial de geração de imagens do torneio para o mundo, e introduziu-se a tecnologia HDR (High Dynamic Range), que entregava cores drasticamente mais vivas, pretos mais profundos e um contraste realista sob a luz do sol nos gramados. Paralelamente, testes avançados com Realidade Virtual (VR) permitiram que usuários de aplicativos compatíveis assistissem aos jogos utilizando óculos especiais de imersão, simulando a experiência de estar fisicamente dentro de um camarote de luxo no estádio russo.
Finalmente, a Copa de 2022, no Catar, consagrou-se como o palco da “onipresença” da tecnologia 5G. Com redes 5G de ondas milimétricas (mmWave) instaladas de forma massiva dentro e no entorno das arenas esportivas, dezenas de milhares de torcedores aglomerados nas arquibancadas conseguiam, simultaneamente, transmitir vídeos ao vivo em alta definição, postar conteúdos pesados em redes sociais e assistir a replays imediatos por outros ângulos de câmera em seus próprios celulares, sem enfrentar qualquer tipo de lentidão ou gargalo de rede. Houve também uma revolução sem precedentes no uso de sensores: a bola oficial do torneio (Al Rihla) continha em seu interior um sensor de unidade de medição inercial (IMU) de 500 Hz, que enviava dados de movimento 500 vezes por segundo. Esse chip funcionava conectado diretamente a um sofisticado sistema de rastreamento óptico baseado em inteligência artificial, alimentado por 12 câmeras dedicadas instaladas na cobertura dos estádios. Os dados de impedimento semicompactados eram enviados instantaneamente para a equipe do VAR em menos de um segundo, gerando animações em computação gráfica 3D que eram exibidas na tela da TV quase imediatamente após o lance, eliminando as longas e tensas linhas manuais do passado.
Nessa mesma Copa de 2022, ocorreu algo revolucionário no mercado de mídia do Brasil: o canal da CazéTV, liderado pelo influenciador, apresentador e jornalista esportivo Casimiro Miguel (Cazé) em parceria com a LiveMode, popularizou-se ao quebrar o monopólio tradicional das redes de televisão abertas e fechadas ao transmitir os jogos da Copa de forma totalmente digital e gratuita pelo YouTube e pela Twitch. Essa disrupção mudou a rotina de milhões de brasileiros, que passaram a acompanhar as partidas diretamente pelo celular no transporte público ou no ambiente de trabalho com uma linguagem jovem, informal e interativa, graças aos direitos de transmissão na internet obtidos pelo canal. A iniciativa consolidou a CazéTV como um dos maiores canais de mídia esportiva do mundo, revolucionando o modelo de negócios do futebol e mantendo sua força até hoje, exibindo diversos jogos e torneios cruciais do calendário de futebol, inclusive as transmissões da atual Copa do Mundo de 2026.

Toda essa longa jornada histórica nos trouxe exatamente até o torneio atual de 2026, realizado de forma conjunta no continente norte-americano (Estados Unidos, Canadá e México). Hoje, a infraestrutura global criada para processar dados em tempo real por Inteligência Artificial, gerenciar fluxos de streamings simultâneos em múltiplos dispositivos por usuário e integrar gráficos interativos tridimensionais nas telas mostra que a Copa do Mundo vai muito além de ser apenas o ápice do futebol mundial: ela se consolidou como o ponto máximo de conexão, tecnologia e engenharia de telecomunicações da humanidade.